Aqui o diabo dentro de mim é livre para se soltar, para se revelar… sem medos… sem pudores… sem castrações. Aqui , caros leitores… aqui o diabo Quer, Pode e Manda!
Tentou abstrair-se da imensa dor de cabeça e formar um pensamento coeso. Demorou algum tempo até se recordar da visita que recebera e de como se deixara cair no sofá perdido entre a cólera e o álcool.
Subitamente lembrou-se também, já tarde demais, do encontro que não chegara a acontecer. Procurou o telemóvel de forma atrapalhada e ainda a tentar recuperar a lucidez. Não tinha qualquer chamada não atendida e tão pouco alguma mensagem.
Marcou o número e esperou ansiosamente. Tocou uma, duas vezes… quatro… cinco… por fim desistiu. Tentaria novamente daí a um bocado.
Não queria acreditar no que deixara acontecer. Nunca se permitia afogar as frustrações na bebida, e no entanto acabara por ceder tão facilmente à armadilha como uma criança cedia a um doce. Pensou que o melhor era tomar um banho, arranjar-se e ir para a empresa.
Voltou a tentar ligar-lhe mais um par de vezes enquanto conduzia, mas sem qualquer sucesso. Recusar-se-ia ela a aceitar as suas explicações? Estaria ela chateada de tal forma com ele? Não resistiu a sorrir ao pensar nessa possibilidade o que certamente implicaria que ela não se sentia indiferente em relação a ele.
Entrou no gabinete com o café numa mão e o jornal na outra. Sentou-se, pousou o jornal e pegou no telemóvel. Rapidamente digitou a mensagem:
“Espero que me deixes pedir desculpa hoje. Preciso ver-te!”
O dia continuou sem que se conseguisse concentrar efectivamente no trabalho. A sua mente dissipava-se mais frequentemente do que queria a pensar nela. Ela não lhe respondera à mensagem nem aos telefonemas e, curiosamente, deu consigo a verificar o telemóvel a cada dez minutos
No final do dia sentia-se impaciente, irritado e quase desesperado. Resolveu ligar a Pedro, afinal ainda tinha de ter uma conversa séria com o seu amigo.
Encontrou-se com o amigo no bar onde a vira a ela pela primeira vez. Sentaram-se numa mesa e Rafael pediu uma água das pedras com limão.
- O que raio te passou pela cabeça para pensares que eu quereria estar com a Raquel?
- Vá lá Rafael. Conheço-te bem demais para perceber que não andas em ti. Ainda não te envolveste a sério com ninguém e a tua vida tem sido encontros casuais atrás de encontros casuais. Ou te decides a perdoá-la ou encontras uma mulher a sério e te deixas de curtes com miúdas. – Rafael notou uma preocupação sincera por parte do amigo.
- Aí é que está. Tu ainda não percebeste que a Raquel faz parte do meu passado. E vê-la ontem só confirmou o facto de que realmente não há qualquer hipótese de voltarmos a partilhar o mesmo espaço. Muito menos a mesma cama. – Fez uma pausa e recostou-se na cadeira – Além disso, sinto-me muito feliz com os meus encontros e as minhas curtes. Não precisas mesmo de te preocupar comigo.
Pensou em contar-lhe acerca de Sofia, mas por alguma razão quis mantê-la o seu segredo pessoal.
- Bem tu é que sabes. – Pedro apoiou-se na mesa – E desculpa lá a cena da Raquel. Ela está sempre a ligar e a perguntar por ti e olha, aquilo saiu-me. Nunca pensei que te aparecesse assim à porta.
- Esquece isso. E paremos com o assunto Raquel que já me chegou a dor de cabeça com que acordei hoje graças a ela.
Continuaram a conversar por algum tempo sem que, ocasionalmente, Rafael conseguisse evitar olhar em redor na ânsia que os seus olhos recaíssem sobre uma figura que lhe fosse familiar.
Finalmente perdeu a esperança e acabou por se deixar convencer por Pedro a irem até uma discoteca de um outro amigo de ambos. A dança que o corpo lhe pedia era outra, mas pensou que seria melhor do que ir para o apartamento sozinho e com um telemóvel completamente silencioso.
À chegada cumprimentou o amigo e mais um ou dois tipos que não conhecia e, sem grandes formalidades, dirigiu-se ao bar. Pediu uma coca-cola e ficou a observar o cenário em redor de si. Pedro já se encontrava no meio de um grupo de miúdas a espalhar todo o seu charme e não parecia que fosse fazer-lhe companhia na próxima hora. A pista encontra-se animada e várias pessoas dançavam ao som da música contagiante. Por momentos quase teve vontade de se lhes juntar.
No meio da pista uma loira espampanante olhou para ele e Rafael percebeu o convite implícito para que fosse ter com ela. E noutra noite qualquer teria ido sem sequer hesitar. Ter-se-ia juntado a ela, teria colado o seu corpo ao dela para lhe sentir as curvas apetitosas, teriam dançado durante umas horas e ele teria acabado a noite com um belo divertimento.
Esta noite, porém, virou-lhe as costas sem sequer se sentir tentado.
Não resistiu a pensar nela novamente, aquela mulher estava a deixá-lo completamente insano. Conseguia sentir o perfume dela, o seu sabor na sua língua, conseguia sentir-se dentro dela. Colocou a coca-cola de lado e pediu um whisky.
Tornou a virar-se para a pista e, sem qualquer dúvida ou incerteza, os seus olhos captaram os doces contornos de um corpo que mexeu de imediato com o seu.
Sofia estava a passos de distância e hoje iria cumprir a promessa que havia falhado na noite anterior.
Vários minutos se passaram até ganhar coragem para sair do carro. Caminhava pesada e ponderadamente, um pé depois do outro, um passo após o anterior. Nem sabia bem se era uma luta que travava no seu íntimo ou se apenas tentava compreender tudo o que estava a acontecer à sua volta. Depois da turbulência de sentimentos, sentia-se calma agora.
“… ele, provavelmente, conhece-te melhor do que eu…” tinha-lhe dito Jorge. Nem queria acreditar nessa possibilidade. Acreditaria ele mesmo nisso? Mas porquê? Era esse o crédito que lhe dava? Que razões lhe dera para que desconfiasse de uma traição?
Parou em frente à porta do prédio. Ponderou se era a atitude correcta estar ali, ou se devia voltar para trás.
Inspirou fundo e olhou para a tecla da campainha do andar dele. Voltou a inspirar fundo e pressionou a tecla. Esperou breves momentos e, sem que ninguém dissesse nada, a porta abriu-se.
Subiu relutantemente até ao 3º piso e, por cada degrau que pisava, o sentimento de dúvida crescia dentro de si. Mas não fora forte o suficiente para a fazer voltar para trás. Olhou para a porta entreaberta e decidiu que era o que queria, que era o que precisava.
Entrou e olhou em redor. Ele estava encostado, de braços cruzados, à ombreira da porta de uma das divisões.
- Apesar de querer muito, nunca pensei que algum dia te visse a entrar nessa porta. Não sem ele contigo. – disse-lhe.
- Pois… nem eu.
Observou Nuno a dirigir-se a si e a fechar a porta.
- Anda. Vamos sentar-nos e conversar.
Encaminhou-a para a sala, ela sentou-se no sofá e ele a seu lado.
- O Jorge vai deixar-me. Acho que pensa que tenho um amante. – observou a expressão de espanto de Nuno – Nem sequer discutimos. Cheguei a casa e ele entregou-me uma carta onde dizia que já não suporta a vida que tem. Que está farto da fachada que o nosso casamento é.
As lágrimas ameaçavam irromper de novo mas obrigou-se a controlá-las.
Sentiu a mão de Nuno por cima da sua e aquele toque fê-la vibrar. Por momentos sentiu-se como se o resto dos problemas não existissem e voltou a ser a adolescente tímida e apreensiva de há muito tempo atrás.
Por vários meses tentara reprimir e ignorar a atracção que sentia por Nuno. Já ele nunca lhe escondera o interesse que sentia por ela, e Isabel sabia que no fundo ser alvo dessa atenção era um dos motivos para sentir o que sentia. Afinal Jorge há muito que deixara de a elogiar, de a fazer sentir uma mulher atraente.
Ambos tinham optado por se distanciar com receio de cederem a um pecado demasiado sórdido e cruel. Nuno era tão somente o melhor amigo de Jorge.
E agora ali estavam eles. Sozinhos e com muito pouco que lhes impedisse as intenções. Ele aproximou-se dela e Isabel sentiu o coração disparar.
Queria mas não queria. Desejava mas sentia culpa. Precisava mas tinha receio. Apetecia-lhe gritar e chorar, mas esses sentimentos ficaram-lhe presos na garganta e sentiu-se como um animal preso numa armadilha. O que raio queria afinal? O que fora ali procurar?
A sua mente silenciou-se de forma abrupta assim que os lábios de Nuno tocaram os seus. E ela deixou-se ir naquele contacto intimo e proibido que a prometia fazer esquecer o resto.
Lembro-me claramente quando estreou o filme “Entrevista com o Vampiro”. Foi a loucura de todas as adolescentes aquele belo espécime de cabelos louros compridos, olhos azuis e feições vincadas e masculinas. Era imagens de revistas coladas, minuciosamente, nas capas dos cadernos, era posters gigantes nas paredes do quarto, era a Bravo e a Ragazza nas mãos de todos as adolescentes minimamente na moda. Logo a seguir veio o “Lendas de Paixão” e aí então foi o êxtase.
E eu, ao contrário de meio mundo, teimei que não. O Brad Pitt não era assim tão giro. Aliás, para mim rapazes giros tinham de ser morenos e olhos castanhos.
E como este exemplo, existem outros. No tempo em que a moda eram as calças da Uniform rasgadas, eu jurava que jamais vestiria umas. Quando estar na moda e ser in significava ir assistir aos treinos dos jogadores de futebol, eu abominava Sá Pintos e Rui Pintos e outros Pintos.
Comprei uns All Star rosa choque quando a tara já tinha passado, e porque realmente eu adorava aquilo. Não tive a loucura das Monte Campo ou dos Beeps – sim, a minha adolescência foi há séculos atrás - e lá porque todos faziam as mesmas coisas e tinham os mesmos gostos eu achava que não existia razão nenhuma para ser igual a todos eles. E não era. E continuo a não ser.
Faço e sempre fiz aquilo que quero e que sinto que devo fazer e não o que os outros fazem, simplesmente porque todos o fazem. Tenho gostos muito próprios, vontades muitos particulares e acima de tudo a minha personalidade. Seja ela boa ou má, gostem os outros ou não gostem, é a minha personalidade.
E, portanto, quem por cá passa poderá constatar isso mesmo. Aqui não se fala do que deve ser falado, não se imita, não se opina acerca dos assuntos do momento e muito menos se anda na moda.
Todos nós nos sentimos atraídos por determinadas características do sexo oposto. Os homens, regra geral, apreciam um par de seios generosos, um traseiro firme e protuberante ou umas pernas longas e torneadas. Já nós, mulheres, apreciamos coisas que podem ser completamente distintas de mulher para mulher.
No meu caso em particular existem algumas características físicas num homem que me poderão chamar a atenção mas, e porque como mulher sou muito mais exigente que os homens em geral, é necessário que as mesmas venham num pacote completo. E esse pacote engloba personalidade, estilo, alguma pacatez e reserva e uma outra característica fundamental:
A Voz.
Devo dizer que a voz de um homem é, para mim, provavelmente uma das coisas mais sensuais num homem. Falar bem e correctamente com um tom de voz firme e seguro é algo que pode revelar bastante acerca da personalidade dele. E claro, uma voz com um tom grave é algo extremamente sexy – pelo menos para mim.
E já sofri algumas “desilusões“ quando, um homem que à primeira vista me pareceu atraente, abre a boca para revelar uma voz fininha (!?excesso de esteróides?!) e um discurso disparatado e idiota .
Em contrapartida, já ganhei respeito e admiração por alguns espécimes masculinos que, apesar de não se enquadrarem no género de homem que me atrai, revelaram um diálogo inteligente, astuto e com muito carácter.
Portanto, senhores (e senhoras também), mais do que a indumentária ou veiculo automóvel, lembrem-se deste apanágio imprescindível da próxima vez que quiserem impressionar o sexo oposto.
*Este senhor é um exemplo de uma voz que me agrada bastante.
Entre um copo e um pensamento, sentia-se a caminhar pelo abismo. E como era doce e convidativo esse abismo, como o fazia sentir-se vivo e acesso.
Não a voltara a ver ou sequer falar com ela depois daquela noite uns dias atrás. Quando acordara nu no seu terraço já ela havia saído, não fora os resquícios do prazer que haviam vivido e julgaria ter sido tudo apenas um sonho, uma fantasia por demais deliciosa.
Nos dias que se seguiram não se reconhecia a si próprio. Fantasiava com ela nas horas mais inoportunas e não conseguira focar-se devidamente no seu trabalho. Até Pedro havia notado o seu comportamento alienado e sugerira-lhe que esse facto solver-se-ia em companhia feminina. Ah, mas mal sabia Pedro que o seu problema residia precisamente na companhia feminina… numa em particular.
Recostou-se mais no sofá e colocou os pés entrelaçados na mesa de centro. Saboreou o whisky, fechou os olhos e pensou mais uma vez no corpo dela… nos olhos dela… na pela macia que lhe despertava o ser… no toque que o levava à loucura…
Foi arrancado da sua divagação com o telemóvel a vibrar, colocou os pés no chão e chegou-se à frente para lhe pegar. Olhou para o visor e viu um número estranho. Sentiu a antecipação apoderar-se de si e, com a sua típica calma, atendeu a chamada.
- Preciso de te ver – disse-lhe a voz do outro lado.
- E eu a ti – fez uma pausa - estou sozinho, vens ter comigo?
- Não. – respondeu-lhe de forma assertiva – vens tu ter comigo.
Registou mentalmente o local que ela mencionara e sem mais palavras terminaram a chamada.
Pôs a água do duche a correr e despiu as roupas que trazia enquanto imagens de prolepse daquele encontro se formavam na sua imaginação.
Quando terminou o duche, limpou o cabelo e o corpo, prendeu a toalha à cintura e perfumou o peito como era o seu hábito.
Nesse momento a campainha tocou. Não queria acreditar que ela o surpreenderia daquela maneira, mas sentiu de imediato uma onda de tormento delicioso inundar-lhe as partes mais íntimas.
Encaminhou-se para a porta tal como estava – ela iria gostar certamente – e dobrou o trinco da porta. Não era ela.
Não queria acreditar na pessoa que estava à sua frente. Como raio se atrevia a aparecer-lhe assim, sem convite ou aviso? Usava uma camisa extremamente decotada que outrora fora do seu agrado. Agora e comparativamente parecia-lhe apenas ordinária.
Não convidou Raquel a entrar, mas ela entrou de qualquer forma com a atitude autoritária que sempre tivera durante as suas vidas em comum.
Mirou-o de forma concupiscente de alto a baixo e esboçou um sorriso reles.
– O Pedro disse-me que tens andado em baixo, e pensei que talvez estivesse na hora de conversarmos. – disse-lhe enquanto se dirigia à sala.
– Não temos nada para conversar e o Pedro está equivocado. Agradeço-te que saias porque tenho um compromisso e estava mesmo de saída. – tentou esconder a aversão que ela lhe fazia sentir mas mostrou-se distante e frio.
Raquel encaminhou-se para ele e colocou-lhe a mão no peito nu e ainda húmido – Achas mesmo?
Rafael sentiu-se nauseado. Todas as sensações inerentes à traição voltaram-lhe à memória. Imagens de corpos nus nos seus lençóis, na sua cama formaram-se-lhe na mente. Olhou-a nos olhos enquanto lhe retirava a mão de si. Como é que poderia ter sido tão estúpido e cego? Como pudera acreditar cegamente numa pessoa que afinal não conhecia de todo? Tinha-se deixado levar pela aprazia das miríades do amor, das fantasias imaginárias de que poderia partilhar o seu ser e a sua vida com alguém que lhe daria igualmente na mesma moeda. Mas tinha-se enganado. Como se tinha engando.
Enquanto a segurava pelo pulso arrastou-a novamente à porta que não chegara a fechar.
- Agradeço-te que saias e não voltes. Não foste e não serás convidada a esta casa. As nossas conversas terminaram no dia que te resolveste meter na minha cama com o teu amante. Felizmente já nada me liga a ti há muito tempo. Não voltes, considera-te avisada.
Ouviu-a a reclamar enquanto lhe fechava a porta, mas ela não voltou a tocar. Que raio teria passado pela cabeça de Pedro para falar com ela acerca dele?
Sentia o sangue a ferver de raiva pelo que ela lhe havia relembrado. Deixou-se cair no sofá enquanto se tentava acalmar. Não queria acreditar que depois de um ano do divórcio ainda se sentisse tão traído e colérico em relação àquela história passada.
Precisava de uma bebida para se acalmar, serviu-se de whisky e tragou o liquido de uma só vez.
Voltou a servir-se e voltou a beber. Deixou-se levar pela dormência que lhe começava a assomar o corpo.
Nós mulheres somos uns bichinhos muito complicados… e os homens que o digam. Conviver diariamente connosco é como andar de montanha russa o que, apesar de ser um pouco assustador em determinados momentos, no final revela-se, sem dúvida alguma, uma experiência simplesmente fantástica e estimulante.
Temos momentos em que nos sentimos super mulheres para, de seguida, sermos assomadas por sentimentos contraditórios de inseguranças e fragilidades. Dias há em que nos olhamos ao espelho e descobrimos mais uma ruga ou nos sentimos deprimidas ante o tamanho que não está na moda dos nossos seios, e noutros achamos que o cabelo assim esticado nos deixa fabulosas e que com aquele vestido o nosso corpo é arrasador.
Faz parte da essência feminina estes altos e baixos e talvez o factor responsável por todos eles sejam as hormonas, as nossas amigas inseparáveis.
E se por vezes simplesmente não conseguimos ter controlo sobre a forma como somos afectadas, na maioria dos dias podemos e devemos obrigar-nos a não nos deixar levar pelos humores mais sombrios.
Para mim, nada como um belo ritual de mimos ao corpo, uma alimentação equilibrada e saudável e umas caminhadas ao ar livre ou no ginásio.
Mas o verdadeiro estímulo para o bem estar e auto-estima no topo é vestir uma roupa bem sensual e elegante, colocar um hidratante nas pernas para acentuar a cor ganha durante o dia de praia, calçar aqueles sapatos de salto bem alto que ele nos ofereceu, colocar um batom discreto nos lábios e terminarmos com um toque sóbrio do nosso perfume preferido.
No final surgir-mos em frente a ele para dizer-mos “Estou pronta” e vermos aquele olhar penetrante e de admiração que, garantidamente, nos fará sentir bem connosco próprias para o resto da semana.
Deixamo-nos, então, levar para um jantar a dois relaxante num restaurante moderno e apelativo, que ele reservou, seguido de umas horinhas de dança numa disco com gente gira e simpática.
Resultado: uma noite muito bem passada, humor em alta nos vários dias que se seguem e a ansiedade e antecipação de voltarmos a repetir.
Deu por si caída na relva, com aquele pedaço de papel amachucado na mão e as lágrimas, já secas, no rosto. No fundo sabia que isto iria acabar por acontecer, sabia que um dia regressaria a casa para receber a notícia que tanto temia. Ele nem tivera a coragem de lhe dizer na cara o que lhe ia na alma.
Ao invés colocara em papel palavras vazias e estranhas que lhe dilaceraram o interior. Era inevitável, supunha. E ela tentara minimizar a importância daquela folha quando ele lha entregara, numa última tentativa de o demover daquilo que sabia que estava prestes a fazer. E que não teria retorno possível.
Mas e agora? O que lhe restava agora? Olhou na direcção da porta aberta, da porta da casa que agora se agigantava sobre si, e sentiu-se quase sem forças. Não queria enfrentar aquilo, não era justo que o destino a obrigasse a isso.
Subitamente deu-se conta que, apesar de tudo, se sentia aliviada. Já não tinha nada a temer porque afinal o seu mundo perfeito acabara de se desfazer. Os dias repletos de dúvidas acabariam, as incertezas sobre se ainda restaria alguma esperança cessariam e já não teria de se perguntar se ele ainda a amava. Agora já sabia as respostas a todas essas questões.
Levantou-se determinada a não ceder à depressão que teimava em querer apossar-se de si. Não se iria agarrar a esperanças vãs, não iria continuar agarrada a algo que já terminara há muito tempo.
A revolta começava agora a irromper do fundo do seu ser. Tinha-lhe dado tanto de si, tinha abdicado de tudo por ele, para que o casamento terminasse assim, com uma carta… sem palavras… sem sequer um pedido de desculpas.
Entrou de rompante em casa, pegou na mala e nas chaves do carro que deixara cair ao chão aquando da leitura da carta, e voltou a sair.
Uma vez no carro ponderou as suas possibilidades. Não podia recorrer à família mais próxima, não estava de todo preparada para o chorrilho de perguntas que tinha a certeza que lhe seriam colocadas. A melhor amiga encontrava-se ausente da cidade e não confiava em mais ninguém para confidenciar tal escândalo na sua vida. Ainda assim não queria voltar a entrar naquela casa, sabia que lhe seria demasiado doloroso.
E foi então que, sem saber bem como ou porquê, ele lhe veio ao pensamento . E num breve segundo todos os problemas, toda a antecipação do escândalo e do sofrimento passaram a ser uma realidade paralela. Sentiu-se à parte daquela vida, queria estar num plano que não aquele.
A escolha não foi, de todo, difícil. Sem sequer se aperceber estava parada no local do qual tanto tinha lutado para se manter afastada.
Subiu o degrau do autocarro naquele final de tarde, como em todos os finais de tarde dos dias anteriores. Por muito que tentasse fazer alongar os dias, o final de tarde acabava por surgir sempre cedo de mais.
Na escola esquecia tudo o resto, não que tivesse uma vida socialmente perfeita lá, mas era uma vida pacifica pelo menos. Não tinha particular interesse nos rapazes ou namoricos e entregava-se aos estudos avidamente na certeza de que isso seria a sua ponte para um mundo melhor, um mundo sem os problemas desconcertantes que tinha no presente.
Sentou-se na última fila, desejando silenciosamente que houvesse trânsito e que os sinais estivessem vermelhos. Mas como sempre, a viagem foi demasiado rápida e em menos de nada deu consigo a entrar no prédio da sua casa.
Hoje era um daqueles dias – qual não o era?! – e mesmo cá em baixo já conseguia ouvir os gritos da discussão que tomaria conta do resto da noite. Pensou em não subir, em não entrar naquela casa conspurcada, mas sabia que se não entrasse só pioraria a situação para a mãe e irmã.
Assim que abriu a porta deparou-se com um cenário ainda mais deturpado do que era habitual. A irmã pequenina jazia inerte, com os olhos vazios e estranhos, num canto ao fundo do corredor. A mãe tentava alcançá-la mas ele impedia-lhe o caminho, vociferando palavrões e gesticulando naquele estado claramente ébrio que já lhe era tão comum. Ao vê-la direccionou-lhe os seus insultos e ela sabia já demasiado bem o que a esperava.
Aceitou, calada e conformada, as agressões físicas e verbais. Eram tão somente mais do mesmo. Deixara de o reconhecer há já muito tempo, duvidava sequer que ainda lhe tivesse uma réstia de amor que fosse. Chegava mesmo a desejar-lhe o pior mal de todos quando, à noite, deitava a cabeça na almofada.
Um punho acertou-lhe a face e sentiu-se atordoada, cambaleou contra o móvel da entrada e, na esperança que ele sentisse algum tipo de complacência, deixou-se cair ao chão. Esperou pela próxima pancada, mas não chegou.
Olhou para cima e viu-o dirigir-se novamente à irmãzinha que continuava inerte. Um súbito pavor e fúria apoderaram-se de si. Não!
Sentiu-se quase como se fosse outra pessoa apoderar-se das suas acções. Abriu a gaveta do móvel e, sem se dar tempo de se arrepender do que iria fazer, procurou a arma que sabia que ele mantinha ali.
Soube naquele preciso momento que jamais se arrependeria do que estava prestes a fazer e isso foi, de tudo, o que mais lhe doeu dentro do peito. Soube que jamais perdoaria a mãe por permitir que assim fosse.
Levantou-se com uma clareza sem precedentes, agarrou na arma com as duas mãos e tentou manter-se firme. E nesse momento ele virou-se para si com uma expressão que lhe ficaria gravada na mente para todo o sempre.