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Primo Moduli - capitulo 17

(continuação daqui)

Já não mais sentia frio. Já não sentia o vazio ou a angústia, o terror ou o pânico. Ao invés sentia o calor, não seco mas húmido, sentia a calmaria própria de quem absorve todas as sensações de forma profunda e penetrante.
E como ela sentira todas as sensações. Como ela o havia sentido; como se havia feito sentir. Nada até àquele momento a fizera sentir tão viva, tão completa. Tão perfeita.
Sentia-se finalmente renascer largando, por fim, um mundo errático e duvidoso. Um mundo do qual sempre sentira não fazer parte mas que teimava em reclamá-la.
As dúvidas e incertezas ficariam para trás, não permitiria mais que se apossassem da sua vida, dos seus actos, dos seus pensamentos.
Hoje acordara sentindo-se, finalmente, ela. Hoje era o dia em que a sua vida começaria.

Espreguiçou-se na cama com cuidado para não acordar Jorge, esticou os braços, o torso; inspirou fundo e deixou-se entorpecer pelo cheiro agridoce daquele quarto de hotel… pelo cheiro dele.
Mas, e apesar do cheiro dele estar entranhado nos lençóis e em si própria,  Isabel apercebeu-se da ausência do seu corpo.

Sentou-se na cama, tapando-se com o lençol, tentando que os olhos se adaptassem às brumas da divisão. Observou os resquícios dos momentos da paixão acesa que ambos haviam vivido umas horas antes. Roupa espalhada pelo chão, os sapatos perdidos aqui e ali… o ar erótico que ainda pairava sobre si.

Tentou ouvir algum tipo de barulho da casa de banho. Ouviu apenas silêncio.
A porta encontrava-se entreaberta e a luz acesa.

Não soube o que poderia ter causado isso e nem porquê, mas um sentimento de desconforto tomou conta de si. Tentou ignorar a sensação, mas a ausência de barulho a cada segundo que, agora, passava vagarosamente só a faziam aumentar.
Agarrou os joelhos contra o peito e tentou, com mais cuidado, escutar os ruídos na madrugada. Ouviu a sua própria respiração... lenta… calma… mais rápida… mais pesada…

Saiu da cama devagar, agarrou na camisa de Jorge que se encontrava caída no chão e vestiu-a.
Parou um instante e ficou ali, quieta e inamovível, presa a um momento que não queria que cessasse. Aquela sensação apoderava-se de si de uma forma que não compreendia, era algo instintivo sem razões ou causas. Simplesmente era. Abraçou-se a si própria numa tentativa, inconsciente, de se proteger de algo. Precisamente do quê, não sabia.

Passo lento após passo lento, inspiração após expiração, caminhou em direcção à porta da casa de banho. Sentia o próprio peito… subia e descia agora a uma velocidade rápida e excitada… angustiada.

Mais tarde lembrar-se-ia, olhando para trás, que era como se tivesse abandonado o seu corpo e conseguisse visualizar de fora cada movimento seu. Aproximou a mão da porta com receio, com mágoa, com descrença… e, de forma quase imperceptível, empurrou-a para que se abrisse.
Nada, jamais, a poderia ter preparado para a cena que se lhe apresentava à frente. E no entanto ela já o adivinhara.

O corpo nu de Jorge jazia no chão. Perto de uma das mãos, um frasco vazio. 

(Continua... Aqui)


(Uma parceria by Louise & Ulisses)

*Pic by deviantart

Primo Moduli - Capitulo 15

(continuação daqui)

Depois de uma quase longa viagem, Jorge parou o carro. Não tinha seguido para o hotel. Estavam no meio de nenhures, não se avistavam casas ou edifícios de qualquer género.

Isabel sentia-se tremer por dentro como se estivesse prestes a cometer uma loucura. E que pensamento ridículo esse. Estava com o seu marido afinal de contas. Ou estaria na verdade com alguém que não conhecia de todo?

Jorge mantinha as mãos no volante e olhava para o vazio da escuridão enquanto respirava profunda e pausadamente.
- Jorge… - chamou-o num murmúrio
Ele voltou a cabeça lentamente em direcção a si. Na escuridão quase não lhe conseguia perceber a expressão, mas sentia a intensidade do seu olhar.

Sem dizer nada abriu a porta do carro e saiu.
Isabel hesitou. Teria Jorge mudado de ideias? Teria ela julgado perceber nele sentimentos que existiam apenas nas suas divagações?

Abriu a porta e saiu disposta a confrontá-lo. Não, não iria confrontá-lo. Iria lutar com todas as armas que tinha para o reconquistar. Afinal, se ele estava ali com ela depois de tudo o que se passara certamente ainda havia esperança. Por mais ínfima que fosse.
Deu a volta ao carro e aproximou-se dele, mas antes que pudesse dizer fosse o que fosse, Jorge agarrou-lhe o braço e puxou-a para si.

Pela primeira vez Isabel sentiu paixão num beijo de Jorge e isso apenas fez com que sentisse o desejo incendiar o seu corpo. Respondeu-lhe na mesma medida. Sem amarras, sem obrigações, sem preocupações com o que quer que fosse a não ser eles dois.
O beijo dele intensificou-se e sentia-lhe as mãos deslizarem pelo seu corpo como se fosse a primeira vez que a tocava… sentia-se tal como a música de Madona… ‘touched for the very first time’.
Sem se aperceber soltou uma risadinha. Jorge parou os beijos e olhou-a de forma intrigada. Mas não lhe perguntou nada. Limitou-se a partilhar do riso dela enquanto lhe mordiscava os lábios, o pescoço, os ombros…

Isabel gemia de prazer ante uma descoberta completamente estranha mas bem vinda e, à medida que os seus gemidos aumentavam, a intensidade dos beijos e toques de Jorge também.
Apercebia-se agora que nunca se tinha realmente entregado a ele. Apercebia-se que ele nunca tinha realmente querido levá-la ao êxtase.
Mas queria fazê-lo agora, ambos queriam, e isso fazia-a sentir uma excitação para lá de mensurável.

Ele deslizou uma das mãos por dentro das coxas dela ao mesmo tempo que, com a outra, lhe acariciava um seio e lhe mordiscava a orelha.
E a vergonha, essa, abandonou-se no preciso instante que o corpo lhe pedia mais… mais perto… mais forte… mais dele…

- Jorge, não aguento mais… - disse-lhe ofegante
E ele cedeu aos desejos dela, levando-a num clímax de sensações que Isabel julgou estilhaçar-lhe todo o seu ser.
Lentamente recuperou um pouco do fôlego. Abriu os olhos e viu Jorge com uma expressão de puro desejo no olhar.

- Ainda agora começámos – disse-lhe…

(Continua... Aqui)


(Uma parceria by Louise & Ulisses)

*Pic by deviantart

Primo Moduli - Capitulo 13

(continuação daqui)

Ficou à espera que Jorge dissesse alguma coisa, mas ele permaneceu com a mesma expressão calma e tranquila como se nada do que lhe dissera importasse. Finalmente falou.

- Confesso que nunca pensei que fosse o Nuno – disse-lhe mantendo um sorriso, que ela não sabia se seria de sarcasmo ou algo diferente.
- Que fosse o Nuno? Como assim?
- Posso saber há quanto tempo exactamente dura isso?
Isabel ficou atónita com a pergunta de Jorge. Julgaria ele que…
- “Isso” não existe. Ou melhor, aparentemente, existe apenas na tua cabeça. Aconteceu ontem, pela primeira e ultima vez. – sentia o sangue a fervilhar-lhe nas veias, sentia-se ultrajada por ele pensar que ela pudesse ser capaz de tal coisa – Não sei onde foste buscar a ideia ridícula de que eu tenho ou tive um amante.
- Porra Isabel! Queres que acredite que, durante todo este tempo em que eu não te toquei e tu não me procuraste, não ias ter com alguém que te desse o que obviamente eu não te dava?!
Meu Deus, onde tinham chegado! Ela via-lhe agora um fogo e uma raiva no olhar que deixara de ver há já muitos, demasiados, anos.
Ele realmente pensara que ela procurar o afecto e o carinho que ele deixara de lhe oferecer com outro alguém. Como estava enganado. Como era possível que não visse o óbvio.
- Por muito estranho que te possa parecer, foste o único homem quem eu alguma vez amei… que ainda amo. – falava agora com uma serenidade e certeza na voz que ela própria não reconhecia – Nunca tive ninguém, e se não te procurava era apenas porque assumi que não querias ser procurado.

Ele não falou. Encostou-se para trás e ficou a olhar para ela. Um olhar enigmático, penetrante. Há quantos anos deixara de a olhar e de a ver realmente…

- E ontem com o Nuno?
- Ontem foi um erro. Não sei o que me deu para o procurar. Acho que estava demasiado frágil e carente. Acho que precisava de me vingar de ti… daquela carta. Pensei que me ias deixar, pensei…
- Desculpa.
Ela olhou para ele e acreditou na veracidade e honestidade do seu pedido de desculpas, apesar de não saber exactamente a que se referia. Não soube o que dizer.

Ficaram ali, calados, olhando nos olhos um do outro. Ela não dizia nada porque não sabia o que dizer.
Continuaram a comer em silêncio, esperando talvez que os problemas cessassem de existir pelo simples facto de não serem falados.

Ambos tinham cometido erros. Ambos sabiam disso. A única questão que agora se colocava era se esses erros tinham ou não relevância. E não eram unicamente os erros da ultima noite, até porque esses seriam, talvez, os menos importantes.

(Continua... Aqui)


(Uma parceria by Louise & Ulisses)

*pic by deviantart

Primo Moduli - Capitulo 11

(continuação daqui)

Acordou sem saber exactamente onde se encontrava, mas aos poucos recordou-se dos eventos das últimas horas. O sol estava alto e brilhante. Não conseguiu perceber onde se encontravam, à sua frente a auto-estrada rodeada por escarpas altas carregadas de árvores e florestação.
Olhou para ele mas não disse nada. Ficou ali, parada e quieta, a observar-lhe o perfil. Sentia-se segura ali com ele, mesmo sabendo o que havia acontecido. Queria falar mas sentia um nó na garganta. Queria salvar-se, salvá-los a ambos, mas será que Jorge o permitiria? No meio desse pensamento uma dúvida instalou-se-lhe no pensamento.
- Porque é que estamos aqui? Porque é que quiseste que eu viesse ter contigo?
Jorge olhou para ela, um olhar fundo e penetrante. Olhou-a e ela soube, pela primeira vez em tantos anos, que a estava a ver.
- Sabes, nem sei bem o porquê. Sei apenas que era a única coisa que me parecia bem.

Não disse mais nada, não lhe pediu explicações, não lhe fez perguntas desnecessárias. Afinal, o que importava o porquê? Estava ali com ela e isso já era alguma coisa. Será que… Não!
Impediu aquele pensamento, aquela pergunta, de se formar no seu consciente. Não queria e nem podia permitir-se a tal.
Por agora bastava-lhe estar ali com ele. Bastava senti-lo ao seu lado.
- Tens fome? – perguntou-lhe com uma voz que não reconhecia
- Sim, bastante.
- Então vamos ver se encontramos um sitio decente para comermos.

Percebeu que estavam o norte de Espanha. Pensou na ironia da situação. Havia-lhe pedido tantas vezes para fazerem uma viagem a dois para aquela zona e haviam sempre adiado por razões que nem se conseguia recordar. E agora, quando o casamento parecia estar a terminar, tinham finalmente viajado até ali. A vida era realmente repleta de escárnio e incertezas.

Jorge parou o carro numa vilazinha pitoresca. As casas alinhadas e compostas dispunham-se em cores neutras e calmantes. Por alguma razão sentiu-se calma ali, sentiu-se como se, afinal, os problemas pertencessem apenas a um sonho longínquo e irreal.
Jorge saiu do carro e Isabel seguiu-lhe o movimento.

Inspirou fundo e olhou à volta. Não sabia bem como tinham acabado ali. Mas sabia que não iria desperdiçar a oportunidade.

(Continua... Aqui)


(Uma parceria by Louise & Ulisses)

Primo Moduli - Capitulo 9

(continuação daqui)

Abriu os olhos e tentou lembrar-se de onde estava. Sentiu os braços dele por cima de si e de súbito todas as memórias, ainda frescas, do que se tinha passado há momentos atrás vieram-lhe à mente.
Levantou-se do sofá, com muito cuidado para não o acordar, e dirigiu-se à casa de banho. Tentou não tropeçar em nada na escuridão e rapidamente entrou na divisão. Fechou a porta ao mesmo tempo que acendia a luz e abriu a torneira do lavatório. Passou água fria no rosto para tentar despertar. Não sabia que horas seriam mas ainda era escuro.
Deu por si a olhar-se ao espelho e pensou no que tinha acontecido na sua vida nas últimas horas. Acordara nessa manhã da mesma forma que acordava há tantas outras durante anos da sua vida. O dia tinha decorrido nos trâmites regulares que ditavam a ordem de todos os seus dias, sem excepções. Mas no final de tarde, ao voltar para a casa que tanta felicidade sempre lhe dera, viu a sua vida ser voltada do avesso ao deparar-se com um marido que, afinal, já não a amava.

Sentira-se humilhada, rejeitada e desprezada. E o que fizera ela? Correra para os braços de um homem, do único homem, para o qual não deveria ter corrido. E tinha-se sentido mulher. Amada ao invés de desprezada, querida ao invés de rejeitada e acarinhada ao invés de humilhada.

Mas agora olhava para o seu reflexo e tentava agarrar-se a esses momentos. Não conseguia.
Apesar da paixão quente e do apaziguamento da sua mágoa sentia que tinha cometido um erro. Era o marido que a rejeitara que ela continuava a amar.

Deixou-se cair no chão quando esta súbita certeza tomou posse do seu raciocínio. Apetecia-lhe chorar e gritar, mas não fez nem uma coisa nem outra.
Afinal a culpa, ainda que mais tarde do que imaginara, sempre chegara. E essa culpa começava a contorcer-se dentro de si. Jorge acusara-a injustamente de ter um amante, mas agora já não seria injustamente. Agora ela tinha-o realmente traído com outro homem. Pior do que isso, ela tinha-o traído com o melhor amigo.

Subitamente ergueu-se do chão. Não podia permanecer ali, tinha de se ir embora. Tinha-se deixado cometer um erro que jamais poderia ser revertido mas não iria cometer outro maior e tornar-se amante dele.

Saiu da casa de banho e dirigiu-se à sala o mais quietamente que conseguiu. Pegou nas suas roupas e na mala, arranjou-se o melhor que pode sem o acordar e, sem sequer pensar duas vezes, saiu do apartamento. Desceu as escadas a correr como se pudesse fugir do que se passara nessa noite. Sabia bem que não podia, que jamais conseguiria.

Entrou no carro e finalmente as lágrimas começaram a rolar-lhe pelo rosto. Sentia-se presa, angustiada. Só tinha um único pensamento em mente que a acalmava.

Tinha de ligar a Jorge…

(Continua... Aqui)


(Uma parceria by Louise & Ulisses)

*Pic by Deviantart

Primo Moduli - Capitulo 7

(continuação daqui)


Tentava respirar mas não conseguia, tentava ganhar coragem para quebrar o beijo mas a capacidade de discernimento havia ficado do lado de fora da porta daquele apartamento.

Sentia a cabeça a rodopiar, sentia o chão fugir-lhe debaixo dos pés. Mas a necessidade que lhe crescia no corpo suplantava qualquer senso de dever ou obrigação.
Nuno beijava-a de forma calma e apaixonada, como há muito não era beijada. E ela deixava-se levar nessa percepção de que os problemas não eram reais, que era apenas uma mulher que se entregava à paixão desenfreada por um homem que por acaso sentia o mesmo por si.
Lembrou-se subitamente, como uma ideia completamente despropositada, de que nunca havia estado com homem nenhum para além de Jorge. Inconscientemente quebrou o beijo.
- Por favor, não te arrependas agora. – disse-lhe Nuno enquanto encostava a testa à sua.
Ela riu-se.
- Acho que já passei essa fase há algum tempo. Não é arrependimento… é…
Não conseguiu acabar a frase, sentia-se embaraçada, tal qual uma adolescente na sua primeira vez.
Nuno agarrou-lhe a face com as duas mãos e olhou-a nos olhos – Seja o que for que te preocupa, esquece. Esperámos demasiado tempo por isto. Agora não há volta atrás.

Disse-o como um facto que não poderia ser contestado ou alterado e isso deu-lhe uma firmeza interior que não reconhecia.
Inclinou-se de novo para os lábios dele, desta vez disposta a acabar aquilo que começara. Sem espaço para hesitações ou inseguranças.

Aos beijos seguiram-se as caricias, os toques íntimos, o descobrimentos de corpos. Não havia pressas e muito menos obrigações, mas desejo. E há quanto tempo ela não fazia amor sentindo e fazendo sentir aquele desejo.
As roupas caíram no chão, os corpos encaixaram-se e Isabel sentiu-se, ainda que por momentos breves, verdadeiramente feliz.

Depois de um êxtase intenso, enroscaram-se no sofá. Ele beijava-a ternamente enquanto lhe acariciava o cabelo e ela não podia deixar de comparar aquele momento com os momentos vazios que sempre sentira no depois com Jorge.
Inspirou fundo, com uma sensação de alivio. Havia temido que a culpa a assaltasse depois de um acto destes, mas invés disso sentia uma liberdade que a permitia respirar muito melhor agora.

Pela primeira vez desde que entrara em sua casa nessa tarde pensou que talvez o divórcio não fosse assim tão mau.

Pela primeira vez desde há muito sentiu-se uma mulher ao invés de mãe e esposa.

(Continua... Aqui)


(Uma parceria by Louise & Ulisses)

Primo Moduli - Capitulo 5

(continuação daqui)

Vários minutos se passaram até ganhar coragem para sair do carro. Caminhava pesada e ponderadamente, um pé depois do outro, um passo após o anterior. Nem sabia bem se era uma luta que travava no seu íntimo ou se apenas tentava compreender tudo o que estava a acontecer à sua volta. Depois da turbulência de sentimentos, sentia-se calma agora.
“… ele, provavelmente, conhece-te melhor do que eu…” tinha-lhe dito Jorge. Nem queria acreditar nessa possibilidade. Acreditaria ele mesmo nisso? Mas porquê? Era esse o crédito que lhe dava? Que razões lhe dera para que desconfiasse de uma traição?

Parou em frente à porta do prédio. Ponderou se era a atitude correcta estar ali, ou se devia voltar para trás.
Inspirou fundo e olhou para a tecla da campainha do andar dele. Voltou a inspirar fundo e pressionou a tecla. Esperou breves momentos e, sem que ninguém dissesse nada, a porta abriu-se.

Subiu relutantemente até ao 3º piso e, por cada degrau que pisava, o sentimento de dúvida crescia dentro de si. Mas não fora forte o suficiente para a fazer voltar para trás. Olhou para a porta entreaberta e decidiu que era o que queria, que era o que precisava.
Entrou e olhou em redor. Ele estava encostado, de braços cruzados, à ombreira da porta de uma das divisões.
- Apesar de querer muito, nunca pensei que algum dia te visse a entrar nessa porta. Não sem ele contigo. – disse-lhe.
- Pois… nem eu.
Observou Nuno a dirigir-se a si e a fechar a porta.
- Anda. Vamos sentar-nos e conversar.

Encaminhou-a para a sala, ela sentou-se no sofá e ele a seu lado.
- O Jorge vai deixar-me. Acho que pensa que tenho um amante. – observou a expressão de espanto de Nuno – Nem sequer discutimos. Cheguei a casa e ele entregou-me uma carta onde dizia que já não suporta a vida que tem. Que está farto da fachada que o nosso casamento é.

As lágrimas ameaçavam irromper de novo mas obrigou-se a controlá-las.
Sentiu a mão de Nuno por cima da sua e aquele toque fê-la vibrar. Por momentos sentiu-se como se o resto dos problemas não existissem e voltou a ser a adolescente tímida e apreensiva de há muito tempo atrás.

Por vários meses tentara reprimir e ignorar a atracção que sentia por Nuno. Já ele nunca lhe escondera o interesse que sentia por ela, e Isabel sabia que no fundo ser alvo dessa atenção era um dos motivos para sentir o que sentia. Afinal Jorge há muito que deixara de a elogiar, de a fazer sentir uma mulher atraente.
Ambos tinham optado por se distanciar com receio de cederem a um pecado demasiado sórdido e cruel. Nuno era tão somente o melhor amigo de Jorge.

E agora ali estavam eles. Sozinhos e com muito pouco que lhes impedisse as intenções. Ele aproximou-se dela e Isabel sentiu o coração disparar.

Queria mas não queria. Desejava mas sentia culpa. Precisava mas tinha receio. Apetecia-lhe gritar e chorar, mas esses sentimentos ficaram-lhe presos na garganta e sentiu-se como um animal preso numa armadilha. O que raio queria afinal? O que fora ali procurar?

A sua mente silenciou-se de forma abrupta assim que os lábios de Nuno tocaram os seus. E ela deixou-se ir naquele contacto intimo e proibido que a prometia fazer esquecer o resto.

E ela queria, precisava esquecer.
(Continua... Aqui)


(Uma parceria by Louise & Ulisses)

Primo Moduli - Capitulo 3

(continuação daqui)

Deu por si caída na relva, com aquele pedaço de papel amachucado na mão e as lágrimas, já secas, no rosto. No fundo sabia que isto iria acabar por acontecer, sabia que um dia regressaria a casa para receber a notícia que tanto temia. Ele nem tivera a coragem de lhe dizer na cara o que lhe ia na alma.


Ao invés colocara em papel palavras vazias e estranhas que lhe dilaceraram o interior. Era inevitável, supunha. E ela tentara minimizar a importância daquela folha quando ele lha entregara, numa última tentativa de o demover daquilo que sabia que estava prestes a fazer. E que não teria retorno possível.

Mas e agora? O que lhe restava agora? Olhou na direcção da porta aberta, da porta da casa que agora se agigantava sobre si, e sentiu-se quase sem forças. Não queria enfrentar aquilo, não era justo que o destino a obrigasse a isso.

Subitamente deu-se conta que, apesar de tudo, se sentia aliviada. Já não tinha nada a temer porque afinal o seu mundo perfeito acabara de se desfazer. Os dias repletos de dúvidas acabariam, as incertezas sobre se ainda restaria alguma esperança cessariam e já não teria de se perguntar se ele ainda a amava. Agora já sabia as respostas a todas essas questões.

Levantou-se determinada a não ceder à depressão que teimava em querer apossar-se de si. Não se iria agarrar a esperanças vãs, não iria continuar agarrada a algo que já terminara há muito tempo.

A revolta começava agora a irromper do fundo do seu ser. Tinha-lhe dado tanto de si, tinha abdicado de tudo por ele, para que o casamento terminasse assim, com uma carta… sem palavras… sem sequer um pedido de desculpas.
Entrou de rompante em casa, pegou na mala e nas chaves do carro que deixara cair ao chão aquando da leitura da carta, e voltou a sair.

Uma vez no carro ponderou as suas possibilidades. Não podia recorrer à família mais próxima, não estava de todo preparada para o chorrilho de perguntas que tinha a certeza que lhe seriam colocadas. A melhor amiga encontrava-se ausente da cidade e não confiava em mais ninguém para confidenciar tal escândalo na sua vida. Ainda assim não queria voltar a entrar naquela casa, sabia que lhe seria demasiado doloroso.

E foi então que, sem saber bem como ou porquê, ele lhe veio ao pensamento . E num breve segundo todos os problemas, toda a antecipação do escândalo e do sofrimento passaram a ser uma realidade paralela. Sentiu-se à parte daquela vida, queria estar num plano que não aquele.

A escolha não foi, de todo, difícil. Sem sequer se aperceber estava parada no local do qual tanto tinha lutado para se manter afastada.

(Continua... Aqui)


(Uma parceria by Louise & Ulisses)

Primo Moduli - Capitulo 1

(Continuação de aqui)

Digitara a carta com uma força e rapidez avassaladoras como se, agora que tinha em plena consciência aquilo que tinha de fazer, o não fazê-lo significasse o cessamento da própria vida.
Tudo o que até então acreditara ser a sua entidade não mais tinha relevância. Não queria que tivesse. Despertara da letargia em que se encontrava há demasiado tempo e somente agora sabia ser capaz de começar a viver.
Não queria e nem iria permanecer mais preso a um passado que não era o seu.

Dobrou minuciosamente a carta em três partes iguais, como se de uma formalidade se tratasse, e colocou-a sobre a mesa. Não queria lidar com mais ninguém neste momento e saberia que em breve teria de ouvir todas as advertências e conselhos que não pediria.
Mas desta vez o seu presente, o seu futuro, não seriam ditados num jogo cujas regras lhe eram infligidas de forma demasiado penosa para que pudesse suportar.

Inspirou profundamente o ar gélido daquele final de tarde, como se agora sentisse todos os detalhes de uma vida não disfrutada de forma dolorosamente acutilante e libertadoramente real.
Quase sentia na língua o sabor daquilo que seria de ora em diante.

Esperou. Pacientemente, como se tivesse todo o tempo do mundo. As horas passaram, e ele permaneceu ali, sentado, num estado de calmaria que não reconhecia.

A porta abriu-se vagarosamente, como se ela adivinhasse a intempérie que a sua vida estava prestes a sofrer. Ela sabia. Ele sabia que ela sabia.
Ela olhou para ele com uma graveza tal no olhar que quase o levou a desistir da sua corajosa e tão ansiada decisão. Quase…

- Não esperava que já estivesses em casa. – As mãos dela libertavam-se, de forma demasiado lenta e ponderada, da mala e casaco.

- Não fui trabalhar hoje.

Rasgava-se-lhe a alma pelo que estava prestes a fazer. Sentiu-se sucumbir num redemoinho de emoções e sentimentos que lhe toldavam o raciocínio e a razão.
Apetecia-lhe gritar para que todos ouvissem que era aqui. Agora! Não mais!

Inspirou fundo e levantou-se. Apesar da urgência para levar a cabo o que se predispusera a fazer, sentia-se estranhamente calmo.
A luz guiava-o, a clareza do caminho a seguir era demasiado presente para que pudesse ser ignorada. Agora sabia-o.

Calmamente pegou na carta e entregou-lha.

(Continua... Aqui)
(Uma parceria by Louise & Ulisses)

Primo Moduli - Considerações

Quando (re)comecei este blog, fi-lo com uma ideia em mente: dar asas à imaginação, partilhar os meus “outros mundos” sem restrições ou acondicionamentos. E o anonimato que estabeleci está a revelar-se, sem dúvida alguma, um bálsamo para alma.

No percurso, ainda curto, da elaboração deste meu espaço tenho-me cruzado com outros bloggers que me surpreenderam de forma extremamente positiva pelos seus conteúdos, escrita e visão e ao mesmo tempo por me darem o prazer de apreciarem aquilo que escrevo.

Um blogger em particular é o Ulisses. Desengane-se quem pensa, ao entrar no mundo Luxúria deste blogger, irá encontrar coisas menos próprias. O que se encontra por lá é uma escrita sublime, repleta de sensualidade e erotismo que nos marca e nos deixa a ansiar por mais.

E eis que o Ulisses me propôs um desafio deveras interessante que não hesitei em aceitar. O desafio consiste em desenvolver uma história alternadamente em que nenhum de nós sabe o que acontecerá a seguir. As únicas regras é deixar fluir as palavras numa escrita sem grilhões dando sempre continuação ao capitulo escrito anteriormente.

Nenhum de nós sabe o que resultará desta parceria, mas adivinha-se qualquer coisa de entusiasmante e acima de tudo divertido.

A história será publicada alternadamente nos dois blogs e o prólogo já foi feito pelo autor da sugestão. Quem estiver interessado em acompanhar a viagem poderá consultar aqui.
 
Liberte-se a mente... aqui vamos nós...
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