Primo Moduli - capitulo 17

(continuação daqui)

Já não mais sentia frio. Já não sentia o vazio ou a angústia, o terror ou o pânico. Ao invés sentia o calor, não seco mas húmido, sentia a calmaria própria de quem absorve todas as sensações de forma profunda e penetrante.
E como ela sentira todas as sensações. Como ela o havia sentido; como se havia feito sentir. Nada até àquele momento a fizera sentir tão viva, tão completa. Tão perfeita.
Sentia-se finalmente renascer largando, por fim, um mundo errático e duvidoso. Um mundo do qual sempre sentira não fazer parte mas que teimava em reclamá-la.
As dúvidas e incertezas ficariam para trás, não permitiria mais que se apossassem da sua vida, dos seus actos, dos seus pensamentos.
Hoje acordara sentindo-se, finalmente, ela. Hoje era o dia em que a sua vida começaria.

Espreguiçou-se na cama com cuidado para não acordar Jorge, esticou os braços, o torso; inspirou fundo e deixou-se entorpecer pelo cheiro agridoce daquele quarto de hotel… pelo cheiro dele.
Mas, e apesar do cheiro dele estar entranhado nos lençóis e em si própria,  Isabel apercebeu-se da ausência do seu corpo.

Sentou-se na cama, tapando-se com o lençol, tentando que os olhos se adaptassem às brumas da divisão. Observou os resquícios dos momentos da paixão acesa que ambos haviam vivido umas horas antes. Roupa espalhada pelo chão, os sapatos perdidos aqui e ali… o ar erótico que ainda pairava sobre si.

Tentou ouvir algum tipo de barulho da casa de banho. Ouviu apenas silêncio.
A porta encontrava-se entreaberta e a luz acesa.

Não soube o que poderia ter causado isso e nem porquê, mas um sentimento de desconforto tomou conta de si. Tentou ignorar a sensação, mas a ausência de barulho a cada segundo que, agora, passava vagarosamente só a faziam aumentar.
Agarrou os joelhos contra o peito e tentou, com mais cuidado, escutar os ruídos na madrugada. Ouviu a sua própria respiração... lenta… calma… mais rápida… mais pesada…

Saiu da cama devagar, agarrou na camisa de Jorge que se encontrava caída no chão e vestiu-a.
Parou um instante e ficou ali, quieta e inamovível, presa a um momento que não queria que cessasse. Aquela sensação apoderava-se de si de uma forma que não compreendia, era algo instintivo sem razões ou causas. Simplesmente era. Abraçou-se a si própria numa tentativa, inconsciente, de se proteger de algo. Precisamente do quê, não sabia.

Passo lento após passo lento, inspiração após expiração, caminhou em direcção à porta da casa de banho. Sentia o próprio peito… subia e descia agora a uma velocidade rápida e excitada… angustiada.

Mais tarde lembrar-se-ia, olhando para trás, que era como se tivesse abandonado o seu corpo e conseguisse visualizar de fora cada movimento seu. Aproximou a mão da porta com receio, com mágoa, com descrença… e, de forma quase imperceptível, empurrou-a para que se abrisse.
Nada, jamais, a poderia ter preparado para a cena que se lhe apresentava à frente. E no entanto ela já o adivinhara.

O corpo nu de Jorge jazia no chão. Perto de uma das mãos, um frasco vazio. 

(Continua... Aqui)


(Uma parceria by Louise & Ulisses)

*Pic by deviantart

2 Diabruras:

Vera, a Loira disse...

Eu confesso que não estava nada à espera disto, mas o bom é isto mesmo, a surpresa.

A Minha Essência disse...

Nunca estamos preparados... ;)

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Agradeço desde já tudo* aquilo que o diabo dentro de ti possa ter para dizer...

*excepto tudo aquilo que o diabo dentro de mim não concordar

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