Encontros Casuais - Part III



Transpôs calmamente o salão e dirigiu-se ao corredor de acesso à casa de banho. Num dos cantos tomava lugar, sob a maior das descrições que a luz fraca permitia, uma conversa entre um dos senhores importantes e uma senhora que adivinhava ser uma das secretárias. Não queria ficar mais tempo ali. Lavou as mãos e a cara e arranjou a camisa preta por dentro das calças do fato. Olhou-se ao espelho e reflectiu sobre o que viu. Sabia que as mulheres gostavam da sua imagem de 1,85m e corpo atlético, olhos escuros e pele morena. Gostavam da mesma forma do seu carro e do seu estatuto. Era uma vantagem sem dúvida, mas tornava o jogo muito mais arriscado. Passou as mãos pelo cabelo e saiu.


Procurou Pedro no meio das dezenas de fatos e vestidos de cocktail a fim de lhe dizer que já tinha tido a sua quota de diversão.

Estagnou surpreendido ao ver uma cara levemente conhecida. A postura sensual e o cabelo dourado solto, em oposto à generalidade, denunciaram-na. Era realmente atraente, de uma forma implicitamente inatingível. Observou-a de longe sabendo que não o veria. Estava sozinha desta vez. Trazia um vestido castanho que lhe caía abaixo do joelho e sem costas que revelava pouco e incitava a imaginar mais. Ela sentou-se e cruzou uma perna sobre a outra num movimento lânguido e demorado enquanto mexia no telemóvel. Perguntou-se o que faria ela ali, quem seria.

Ganhou coragem, tirou um copo de champanhe da bandeja do empregado que passou por si e dirigiu-se a ela.
Ofereceu-lhe a bebida e apresentou-se. Ela respondeu-lhe educadamente com uma indiferença algo desconcertante. Não estava habituado à indiferença. Respondia pelo nome de Sofia.
Falaram de trivialidades, da festa e dos presentes enquanto ele, na sua mente, projectava imagens absurdamente deliciosas e arrebatadoramente despropositadas. Ela olhava-o nos olhos quando se lhe dirigia e isso provocava-lhe um prazer desconhecido. Não era uma secretária, mas trabalhava numa das empresas com as quais tinha negócios.
Foram interrompidos, demasiado precocemente, pelo homem que reconheceu como a companhia dela do bar. Apresentou-se, era chefe dela. Desagradou-lhe a ideia que formou de imediato, a mesma que havia formado no último encontro. Mas desta vez acalentou a esperança de estar equivocado. Teve a confirmação de que estava quando uma das secretárias se acercou do homem e se insinuou de forma pouco simulada. Ali sim, não haviam dúvidas algumas.

Ela despedia-se agora, pedia desculpa mas a sua noite acabava ali. Ofereceu-se para a acompanhar, também estava de saída, não se chegou a despedir de ninguém, a sua atenção estava virada apenas para ela.

A noite estava quente e a cidade já tinha adormecido. Havia qualquer coisa nela que o magnetizava de forma insana, não conseguia formar pensamentos que não fossem os de lhe passar as mãos pelos ombros desnudos ou passar a língua pelos seus lábios. Precisava urgentemente de estar com uma mulher.
Perguntou-lhe se lhe podia ligar um desses dias. Rafael não compreendeu de imediato o tom disfarçado de surpresa ao hesitar perante a sua ousadia, mas entregou-lhe um cartão. Não resistiu a demorar-se no toque da sua mão quando o aceitou, pensou que isso a intimidaria mas ela não recuou perante a sua discreta e directa sedução masculina.
O toque leve da mão dela levou-o a imaginar aqueles dedos finos e longos a traçarem-lhe os mais infindáveis percursos no seu corpo, a deslizarem por si de forma sumptuosa e magnífica, a provocarem-lhe arrepios de loucura...
Avançou mais para ela e nesse instante ouviu o alarme do carro enquanto as portas abriam – Boa noite – disse-lhe. Rafael esboçou um sorriso e acenou com a cabeça.

Iria para casa novamente sozinho. Abriu a janela do seu Volvo xc60, precisava de sentir o ar a refrescar-lhe as ideias, e ligou o motor. Gostava de ter trazido a R1 mas fato e mota não eram uma combinação perfeita. Arrancou devagar, mas quando entrou na A5 não resistiu a sentir a adrenalina que a velocidade lhe provocava.

Ligou o som alto e deixou-se levar.

19 Diabruras:

Ulisses disse...

Continuo a ler as linhas e as entrelinhas...
...e aguardo curiosamente a continuação...

:)

Rafeiro Perfumado disse...

Outro que tenta disfarçar a pouca pujança da sua genitália com um carro potente...

Louise disse...

Ulisses, acho que a continuação a longo prazo irá agradar...

Louise disse...

Rafeiro, pelo menos é um carro como deve ser. E não é a pujança que é pouco... é mais a oportunidade para a colocar em acção :P

Martini Bianco disse...

Mais um encontro interessante, que tal como em alguns sonhos, quando se aproxima a melhor parte, ou acordamos ou algo muda subitamente nesse mesmo sonho.
Só por curiosidade, porque é que nestes 3 encontros casuais a personagem central é sempre um homem?

Bjs

MRPereira disse...

GOSTO! Isto um post por dia, não sabe o bem que lhe fazia! A novela agrada ao menino! ;)

Kiss

Louise disse...

Martini, na verdade estes encontros fazem parte de uma só história, pelo que o personagem é sempre o mesmo - Rafael. São sempre a continuação da anterior.
O facto de terminar sempre "no melhor" é só uma forma de prolongar e aumentar a curiosidade e antecipação.

Vera disse...

Estou a adorar, espero pela continuação da história. Muito interessante.

Martini Bianco disse...

...Então está ainda mais bem conseguido do que pensava. Esse Rafael ainda há-de ser bastante torturado pela tua escrita antes de ver consumados os seus desejos..

:)

Louise disse...

Martini, mas quanto maior a tortura... maior o prazer...

Roxanne disse...

A sedução é sempre a parte mais gira do jogo! ;)

YeuxdeFemme disse...

Escreves extremamente bem. :)
Muito bom texto.

Osga disse...

Claramente que um homem que escolhe um xC60 jamais andaria de R1...

Isto é uma falácia para as leitoras femininas :D

Louise disse...

YeuxdeFemme, muito obrigada :)

Louise disse...

Osga, agora que falas nisso és capaz de ter razão.
Sabes originalmente, em vez do vidro do xC60, ele abria a capota do R8. Mas depois pensei que um R8 é mais fanfarrão ao passo que o volvo é mais discreto - como quero que seja o personagem.

Mas pronto, numa história futura vou tentar fazer melhor o trabalho de casa ;)

sofia disse...

E uma personagem tem o meu nome!
Linda, tive que escrever um post a pedir desculpa.A verdade é que não me tinha esquecido de ti, mas pensei que talvez não quisesses nesta nova fase falar de ti.
Um beijo grande e vai lá ler o que escrevi. É verdade pura!

Matilda disse...

Tenho muitas tontices iguais (morangos, entregar-me só a mim, forçar os sonhos...) e outras parecidas (imaginar strip, imaginar antes de adormecer...).

Acho que todos nós, no fundo, no fundo, somos bem mais iguais uns aos outros do que pensamos ser. E se nos lembrassemos disso mais vezes nao haveriam tantos atritos entre nós.

Abraço.

Olhos Dourados disse...

Esse primeiro também me acontece! lol

Miss Yellow disse...

Descobri o teu blog hoje, e devo dizer que criaste em mim uma enorme curiosidade em seguir os "Encontros casuais".

Fico à espera de mais ;)

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Agradeço desde já tudo* aquilo que o diabo dentro de ti possa ter para dizer...

*excepto tudo aquilo que o diabo dentro de mim não concordar

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