Encontros Casuais - Part VII



Tentou abstrair-se da imensa dor de cabeça e formar um pensamento coeso. Demorou algum tempo até se recordar da visita que recebera e de como se deixara cair no sofá perdido entre a cólera e o álcool.

Subitamente lembrou-se também, já tarde demais, do encontro que não chegara a acontecer. Procurou o telemóvel de forma atrapalhada e ainda a tentar recuperar a lucidez. Não tinha qualquer chamada não atendida e tão pouco alguma mensagem.

Marcou o número e esperou ansiosamente. Tocou uma, duas vezes… quatro… cinco… por fim desistiu. Tentaria novamente daí a um bocado.

Não queria acreditar no que deixara acontecer. Nunca se permitia afogar as frustrações na bebida, e no entanto acabara por ceder tão facilmente à armadilha como uma criança cedia a um doce. Pensou que o melhor era tomar um banho, arranjar-se e ir para a empresa.

Voltou a tentar ligar-lhe mais um par de vezes enquanto conduzia, mas sem qualquer sucesso. Recusar-se-ia ela a aceitar as suas explicações? Estaria ela chateada de tal forma com ele? Não resistiu a sorrir ao pensar nessa possibilidade o que certamente implicaria que ela não se sentia indiferente em relação a ele.

Entrou no gabinete com o café numa mão e o jornal na outra. Sentou-se, pousou o jornal e pegou no telemóvel. Rapidamente digitou a mensagem:
Espero que me deixes pedir desculpa hoje. Preciso ver-te!

O dia continuou sem que se conseguisse concentrar efectivamente no trabalho. A sua mente dissipava-se mais frequentemente do que queria a pensar nela. Ela não lhe respondera à mensagem nem aos telefonemas e, curiosamente, deu consigo a verificar o telemóvel a cada dez minutos

No final do dia sentia-se impaciente, irritado e quase desesperado. Resolveu ligar a Pedro, afinal ainda tinha de ter uma conversa séria com o seu amigo.

Encontrou-se com o amigo no bar onde a vira a ela pela primeira vez. Sentaram-se numa mesa e Rafael pediu uma água das pedras com limão.
- O que raio te passou pela cabeça para pensares que eu quereria estar com a Raquel?
- Vá lá Rafael. Conheço-te bem demais para perceber que não andas em ti. Ainda não te envolveste a sério com ninguém e a tua vida tem sido encontros casuais atrás de encontros casuais. Ou te decides a perdoá-la ou encontras uma mulher a sério e te deixas de curtes com miúdas. – Rafael notou uma preocupação sincera por parte do amigo.
- Aí é que está. Tu ainda não percebeste que a Raquel faz parte do meu passado. E vê-la ontem só confirmou o facto de que realmente não há qualquer hipótese de voltarmos a partilhar o mesmo espaço. Muito menos a mesma cama. – Fez uma pausa e recostou-se na cadeira – Além disso, sinto-me muito feliz com os meus encontros e as minhas curtes. Não precisas mesmo de te preocupar comigo.
Pensou em contar-lhe acerca de Sofia, mas por alguma razão quis mantê-la o seu segredo pessoal.
- Bem tu é que sabes. – Pedro apoiou-se na mesa – E desculpa lá a cena da Raquel. Ela está sempre a ligar e a perguntar por ti e olha, aquilo saiu-me. Nunca pensei que te aparecesse assim à porta.
- Esquece isso. E paremos com o assunto Raquel que já me chegou a dor de cabeça com que acordei hoje graças a ela.

Continuaram a conversar por algum tempo sem que, ocasionalmente, Rafael conseguisse evitar olhar em redor na ânsia que os seus olhos recaíssem sobre uma figura que lhe fosse familiar.
Finalmente perdeu a esperança e acabou por se deixar convencer por Pedro a irem até uma discoteca de um outro amigo de ambos. A dança que o corpo lhe pedia era outra, mas pensou que seria melhor do que ir para o apartamento sozinho e com um telemóvel completamente silencioso.

À chegada cumprimentou o amigo e mais um ou dois tipos que não conhecia e, sem grandes formalidades, dirigiu-se ao bar. Pediu uma coca-cola e ficou a observar o cenário em redor de si. Pedro já se encontrava no meio de um grupo de miúdas a espalhar todo o seu charme e não parecia que fosse fazer-lhe companhia na próxima hora. A pista encontra-se animada e várias pessoas dançavam ao som da música contagiante. Por momentos quase teve vontade de se lhes juntar.
No meio da pista uma loira espampanante olhou para ele e Rafael percebeu o convite implícito para que fosse ter com ela. E noutra noite qualquer teria ido sem sequer hesitar. Ter-se-ia juntado a ela, teria colado o seu corpo ao dela para lhe sentir as curvas apetitosas, teriam dançado durante umas horas e ele teria acabado a noite com um belo divertimento.

Esta noite, porém, virou-lhe as costas sem sequer se sentir tentado.
Não resistiu a pensar nela novamente, aquela mulher estava a deixá-lo completamente insano. Conseguia sentir o perfume dela, o seu sabor na sua língua, conseguia sentir-se dentro dela. Colocou a coca-cola de lado e pediu um whisky.
Tornou a virar-se para a pista e, sem qualquer dúvida ou incerteza, os seus olhos captaram os doces contornos de um corpo que mexeu de imediato com o seu.

Sofia estava a passos de distância e hoje iria cumprir a promessa que havia falhado na noite anterior.

12 Diabruras:

MRPereira disse...

Tou a gostar tanto desta história...

Ulisses disse...

Não há coincidências...

:)

Vontade de disse...

Hum... se ela lá está, há que aproveitar...

Rita G. disse...

Ai que isto está a ficar "quente":)...Bj!

Roxanne disse...

cativante até dizer chega! estou presa à historia!

Marquês de Sade disse...

Inebriante!

Purple disse...

Estou completamente rendida :)

Martini Bianco disse...

Mais uma vez.. muito intenso! Por vezes fico com a ideia de que tu talvez possas ter sido uma dessas protagonistas dos encontros casuais. Não aposto em qual delas, mas é uma ideia minha :)

Sofia disse...

Estou a adorar a história:)
Parabéns e continua a escrever!

Patife disse...

Conta-me histórias... (E desta vez não estou a ser sarcástico).

Vera, a Loira disse...

Bem, uma coisa é certa, não quero perder uma única parte desta tua história, simplesmente fantástica.

Louise disse...

Ulisses, achas que não? Mas não te esqueças que isto são encontros casuais...

Martini Bianco, será que sim?... será que não?... who knows ;)

Sofia, muito obrigada.

Patife, nada me dará mais prazer que contar histórias. Talvez não com a mesma originalidade que as tuas, mas certamente com a mesma paixão ;)

Vera, stay tunned...

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Agradeço desde já tudo* aquilo que o diabo dentro de ti possa ter para dizer...

*excepto tudo aquilo que o diabo dentro de mim não concordar

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